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Vida Extra

Aventuras e desventuras no universo dos videojogos.

Vida Extra

Aventuras e desventuras no universo dos videojogos.

Os 45 anos atribulados da Atari

Fundada em 27 de junho 1972 por Nolan Bushnell e Ted Dabney, a Atari já foi a maior marca de videojogos do mundo. Já foi dada como morta. Mas 45 anos depois ainda está em atividade, ainda é uma referência cultural e ainda quer lançar novas consolas.

 

Logotipo da Atari

 

Antes da Nintendo, Sega e PlayStation, Atari era "o" sinónimo de videojogos. A sua relevância cultural e económica era tal, que é uma das marcas visíveis nos inúmeros reclames luminosos do filme futurista Blade Runner, ao lado, por exemplo, da Coca-Cola.

 

Imagem de Blade Runner

 

Uma das razões para este sucesso inicial foi a sua capacidade de inovação. Ainda antes de se chamar Atari, os seus fundadores já tinham sido responsáveis por criar a primeira máquina de videojogos comercial (até então os poucos videojogos existentes corriam em computadores de empresas ou universidades). Computer Space era uma máquina de arcadas onde os jogadores colocavam uma moeda para jogar. Não foi um sucesso, mas a primeira máquina de arcadas com o nome da Atari foi.

 

 

Pong, o primeiro sucesso

 

Diz a lenda que quando a Atari criou a sua primeira máquina de Pong, convenceram um bar local a colocar lá a máquina em troca de uma parte das receitas que pudesse gerar. Era uma forma de testar a aceitação do novo jogo. O dono do bar não estava muito convencido, mas lá acedeu.

 

Passados apenas alguns dias o dono do bar telefona para a Atari a pedir que viessem recolher a máquina. Estava avariada. Ao inspecionar a máquina a Atari descobre que a causa do problema era... a caixa de recolha de moedas cheia. Pong era um sucesso e iria catapultar a Atari para o estrelato.

 

Imagem do jogo Pong

 

 

Pong, o primeiro processo em tribunal

 

Pong não foi apenas o primeiro sucesso. Cabe-lhe também a honra dúbia de ser o primeiro videojogo a dar origem a um processo em tribunal.

 

O motivo é simples. O jogo Pong não era uma ideia original. Era uma cópia do jogo da Magnavox Odyssey, a primeira consola de jogos do mundo, e que foi lançada nesse mesmo ano de 1972. O diferendo acabou por ser resolvido amigavelmente, fora dos tribunais.

 

 

Atari VCS, a consola de "nova" geração

 

As primeiras consolas de jogos não eram "computadores". Os jogos não eram programados em código, mas sim fabricados na forma de circuitos eletrónicos. Isto limitava em muito o número e tipo de jogos que uma consola podia correr.

 

Em 1975 começaram a aparecer as primeiras consolas de segunda geração, que já funcionavam à base de um microprocessador e de código informático. A Atari não foi a primeira, mas foi sem dúvida a que teve mais sucesso.

 

Fotografia da Atari 2600

 

Atari VCS (de "Video Computer System") foi lançada em 1976 e, com algumas reformulações pelo meio (e rebatizada Atari 2600), só seria descontinuada em 1992, com 15 anos de mercado e um número de vendas estimado em 30 milhões.

 

 

O primeiro nível secreto

 

Uma curiosidade muitas vezes referida quando se fala na Atari, é que foi num dos seus jogos que foi descoberto o primeiro easter egg.

 

Os easter eggs (ovos de páscoa) são pequenas surpresas ou brincadeiras que estão escondidas em alguns jogos: às vezes os criadores do jogo colocam fotografias suas mais ou menos escondidas nos cenários; às vezes colocam no jogo personagens ou objetos de outros jogos ou de filmes; o popular Diablo tinha um nível secreto onde os únicos inimigos eram... vacas.

 

Os easter eggs são tipicamente pequenos pormenores engraçados, mas a sua origem é menos alegre. E a Atari esteve na sua génese.

 

À medida que o seu sucesso aumentava, a Atari tinha cada vez mais programadores a criar os seus jogos. Só que os nomes dos criadores dos jogos nunca eram revelados. Os jogos não tinham ficha técnica e a empresa insistia que a autoria fosse sempre atribuída à "Atari".

 

Descontente com essa situação, um dos programadores resolveu esconder o seu nome num nível secreto do jogo em que estava a trabalhar. "Created by Warren Robinett" aparecia numa sala do jogo Adventure, acessível apenas se o jogador colocasse o seu avatar em cima de um único pixel numa única área do jogo. A Atari só descobriu já depois do jogo estar lançado e já depois de Warren ter saído da empresa. E o easter egg acabou por se manter.

 

Imagem do nível secreto em Adventure

 

Outros easter eggs mais antigos foram entretanto descobertos, mas este foi o primeiro a ser conhecido.

 

 

Vítima do sucesso e do ego

 

O descontentamento de Warren Robinett não era caso único. Em 1979 quatro outros programadores da Atari reuniram com o presidente da empresa para exigirem maior reconhecimento pelo seu trabalho. Queriam os seus nomes nas caixas dos jogos e uma percentagem das vendas. A coisa não correu bem.

 

Esses quatro programadores resolveram então despedir-se e criar a sua própria produtora. Chamaram-lhe Activision. É uma das maiores editoras de videojogos da atualidade.

 

Capa de Pitfall!

 

Só que esta aparentemente pequena historieta acabaria por deitar abaixo a já bilionária indústria americana de videojogos.

 

Acontece que na altura os videojogos eram produzidos apenas e só pelas empresas que construíam as consolas. Não havia empresas que fizessem só videojogos. E como não existia sequer o conceito, também não existia enquadramento legal. A Activision começou a desenvolver e vender os seus próprios jogos para as consolas da Atari e para outras. E não havia nada que as fabricantes das consolas pudessem fazer.

 

O problema não era tanto a Activision, que desenvolvia jogos de qualidade. O problema eram todas as inúmeras empresas que resolveram fazer o mesmo mas sem terem programadores minimamente experientes.

 

O mercado foi inundado de jogos atrás de jogos. Cada um pior que o outro. As lojas não conseguiam vender os jogos e também não os conseguiam devolver às produtoras - que entretanto tinham gasto o dinheiro a produzir mais maus jogos - para reaver o seu dinheiro. E isso significava que também não podiam (nem queriam) comprar novos jogos ou novas consolas para colocar à venda.

 

A inundação começou a afogar os vários setores da indústria dos videojogos e entre 1983 e 1985 deu-se o grande crash. Em '83 a indústria americana de videojogos valia 3.200 milhões de dólares. Em '85 valia 100 milhões.

 

Essa recessão seria contrariada pela Nintendo, que exigia royalties a qualquer empresa que quisesse criar jogos para a sua NES e que tinha sistemas para evitar que a consola corresse jogos não autorizados. Para além disso, a Nintendo atribuía aos jogos autorizados um "Selo de Qualidade", de forma a garantir ao consumidor que o jogo cumpria os seus exigentes padrões. "Videojogos" passou então a ser um termo associado ao Japão.

 

 

Os primeiros videojogos publicitários

 

Uma pequena curiosidade: Ao abrir-se de forma desregulada a criação de videojogos e com o imenso sucesso da Atari VCS/2600, algumas marcas de produtos de grande consumo resolveram criar e distribuir os seus próprios jogos, para publicitar os seus produtos. Foram os primeiros advergames, de marcas como a Purina, a Johnson&Johnson e a Kool-Aid.

 

 

O período difícil

 

Na sua época dourada a Atari produzia máquinas de jogos de arcada, consolas e computadores. Era responsável por um terço das receitas anuais da gigante Warner Communications, que tinha comprado a Atari em 1976.

 

A Atari ainda lançou mais alguns jogos e consolas até finais dos anos 90, mas nunca recuperou da desvalorização do mercado entre '83 e '85. Chegou a ser considerada "morta". Foi repartida e vendida várias vezes e passou a servir praticamente só como marca para ajudar a vender alguns produtos.

 

Mas a editora francesa Infogrames tomou as rédeas da marca em 2001 e anunciou que iria relançar a Atari. O sucesso foi relativo, mas durante vários anos a Atari voltou a ser uma marca ativa e relevante no mundo dos videojogos. Infelizmente os prejuízos foram-se acumulando até final da década e a marca caiu novamente na obscuridade. Em 2013 abriu falência.

 

Capa de Enter the Matrix

 

 

Morte e renascimento

 

A aparição da Atari no filme Blade Runner parecia nesta altura uma previsão falhada do futuro, mas a verdade é que a Atari não morreu. A empresa recuperou da falência em apenas um ano, graças a uma estratégia focada nos jogos de casino.

 

A marca continua a existir e a recuperar financeiramente. Já este ano anunciou que vai lançar uma nova consola de jogos, a Atari Box. Nada mais se sabe ainda sobre esse projeto, exceto que será "baseado na arquitetura dos PCs".

 

 

A Atari é sem dúvida uma marca que se recusa a morrer. E talvez por isso a sua inclusão no filme Blade Runner não tenha sido uma previsão falhada. E talvez por isso tenha voltado a aparecer no trailer do novo Blade Runner 2049, em toda a sua gigantesca glória.

 

 

É uma marca que "viu coisas que vocês nem iam acreditar" mas que, ao contrário de Roy Batty no final de Blade Runner, ainda não aceitou morrer.

publicado às 09:13

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