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Vida Extra

Aventuras e desventuras no universo dos videojogos.

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O preço da História e o preço da Realidade Virtual

A História repete-se, embora só às vezes. Se olharmos para os preços de lançamento de consolas a História diz-nos que a mais barata vai ser a que tem mais sucesso, pelo menos na maioria das vezes.

 

Vamos voltar atrás no tempo por um instante.

 

1995. É realizada a primeira E3 - Electronic Entertainment Expo -, a maior feira de videojogos a nível mundial, ainda hoje o marco mais importante no calendário anual desta indústria. Logo nesta primeira edição vão ser anunciados os lançamentos de duas consolas rivais: a Saturn, da Sega, e a PlayStation, da Sony. E uma delas vai cilindrar completamente a outra... em menos de 3 segundos.

 

A Sega Saturn era líder de mercado e anunciou que a sua nova consola seria posta à venda pelo preço de 399$. É caro, mas a nova consola da Nintendo só vai chegar ao mercado no ano seguinte e a Sony é absolutamente principiante nisto das consolas. Não há concorrência, por isso estão confortáveis em pedir este valor.

 

Segue-se a conferência da Sony. O presidente da Sony Interactive Entertainment dá as boas-vindas, faz um discurso formal sobre a PlayStation e, quando chega a altura de divulgar o preço, diz que vai chamar ao palco o presidente da Sony Computer Entertainment of America, Steve Race, para uma breve apresentação. Steve sobe ao palco, abeira-se do púlpito, pousa as folhas com os seus apontamentos, diz "299" e vai-se embora.

 

O público na sala começa a aplaudir efusivamente. A Sony acabava de se tornar líder no mercado das consolas de jogos, mesmo antes de colocar a sua primeira consola à venda.

 

 

Isto é mais do que apenas uma estória engraçada. Não foi a única vez que uma diferença de 100$ determinou o líder de mercado. Ironicamente, foi a mesma Sony que inverteu os papéis quando em 2006 anunciou que o preço da PlayStation 3 seria 599$ (ou 499$ para um modelo com disco rígido de menor capacidade). A Microsoft anunciou um preço de 399$ para a sua Xbox 360 (ou 299$ para um modelo sem disco rígido) e passou os anos seguintes a bater a PlayStation 3 em números de vendas. Mas a verdade é que nessa geração de máquinas a grande vencedora foi mesmo a Nintendo Wii, que era ainda mais barata: custava 249$.

 

Ironicamente (outra vez), a Microsoft cometeu o erro da Sony (que tinha sido o erro da Sega) e reinverteu os papéis quando anunciou a atual Xbox One pelo preço de 499$. A Sony anunciou um preço de 399$ para a PlayStation 4 e tem sido a consola mais vendida desde o lançamento.

 

A História repete-se e geralmente porque as empresas não aprendem ou não olham para o passado.

 

Também há exceções, claro. Na atual geração de consolas ainda temos a Wii U, que teve um preço de lançamento inferior às suas duas rivais mas não conseguiu ser um sucesso de vendas. Mas regra geral, por muito bom que possa ser um equipamento, se o preço for muito elevado as vendas vão ressentir-se.

 

Com a exceção dos smartphones topo de gama, um bom equipamento caro vai vender menos que um equipamento razoável a um bom preço. Para se conseguir um sucesso de vendas é precisa uma boa "proposta de valor". Algo que tenha qualidade e não seja muito caro.

 

E na realidade virtual?

 

Os 3 da Realidade Virtual(Imagem da esquerda: De Maurizio Pesce, adaptada de https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:HTC_Vive_%2816%29.jpg via licença CC.)

 

A Sony anunciou esta semana o preço do PlayStation VR, o seu sistema de realidade virtual. E pode muito bem ter cilindrado a concorrência só com o anúncio do preço, repetindo aquele momento na E3 de 1995.

 

3 grandes concorrentes atuais na Realidade Virtual:

 

1. A HTC vai vender os seus Vive por 799$.
2. A Oculus, adquirida pelo Facebook, vai vender os seus Rift por 599$.
3. A Sony vai vender os PlayStation VR por 399$.

 

A bem da verdade os PlayStation VR precisam também da Câmara PlayStation, que é vendida à parte. A Sony não está a incluir a câmara com os PlayStation VR para não obrigar os utilizadores que já têm uma a voltar a comprar um periférico que já têm. Mas para esta nossa comparação o valor não muda o cenário.

 

No papel, em termos de especificações técnicas, o sistema da Sony é o menos "potente". Mas a verdade é que funciona bem. E enquanto os outros dois sistemas precisam de um PC topo de gama para funcionarem bem, exigindo um investimento adicional (na ordem dos 1000€ ou mais) a quem não tiver já um PC "artilhado", o PlayStation VR precisa apenas de uma PlayStation 4, que custa 350$.

 

A realidade virtual é toda uma nova plataforma de entretenimento, com características muito próprias. Para que esta tecnologia se possa manter viável precisará de empresas a desenvolver conteúdo: sem conteúdo não serve para nada. E para ter empresas a desenvolver conteúdo precisa de vender bem: se muito pouca gente tiver um sistema de realidade virtual não compensa investir na produção de conteúdos porque os conteúdos vão sempre "vender" pouco.

 

Para que esta tecnologia se possa manter viável estes primeiros sistemas de realidade virtual vão ter de vender bem. E não estou a ver muita gente disposta a gastar 600 ou 800 dólares (provavelmente mais quando convertido para euros) numa nova plataforma que para muitos vai ser difícil sequer perceber o que é. Mas 400 euros por uma coisa que se liga à PlayStation que já está lá em casa? Já é mais tentador. E estima-se que haja atualmente 40 milhões de consolas PS4 vendidas, o que já é uma boa base de partida.

 

Ainda é cedo para sabermos se a História se vai repetir novamente, mas a Sony pode muito bem já ter vencido esta guerra de vendas ainda antes das vendas terem começado. E mais importante ainda, é capaz de ter garantido o futuro desta nova tecnologia.

 

Nota: Porquê os preços em dólares? Não é nenhuma mania ou admiração pelos Estados Unidos. É apenas a forma mais simples de comparar os valores. Os preços dos Vive e dos Rift variam muito entre países europeus (para Portugal nem estão ainda definidos) e quando as primeiras consolas que refiro foram lançadas os preços ainda eram em Escudos.
publicado às 14:27

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